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Por que a esquerda tem menos “cultura de engajamento” do que a extrema-direita?

1 de julho de 2022
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Por que a extrema-direita se engaja mais do que a esquerda?

 

Como explicar que um sujeito que passou quase 30 anos como deputado federal sem conseguir aprovar um único projeto útil ao país, que teve sua vida política marcada apenas por declarações absurdas e violentas, que expressa ideias desumanas com uma frequência assustadora e que está envolvido em diversos casos sob suspeita de corrupção tenha se tornado presidente do Brasil?

Como explicar que centenas de pessoas que também nunca contribuíram com a sociedade conseguiram se eleger deputados federais e estaduais, senadores, vereadores e prefeitos apenas espalhando mentiras e discursos de ódio?

Como explicar que trabalhadores apoiem projetos que acabam com os próprios direitos?

Pois é, sem o (mau) uso de redes sociais e aplicativos de mensagens, nada disso aconteceria.

Quem tem mais cultura de engajamento?

Para entender como tudo isso vem acontecendo, é importante observarmos dois fatores: a publicação de conteúdos nas redes sociais e o nível de engajamento neles.

O engajamento é o que a pessoa faz quando recebe uma postagem na rede social. São as reações, os comentários, os compartilhamentos (que variam um pouco de acordo com cada rede social) e os cliques.

O engajamento se dá quando uma pessoa considera que aquele conteúdo é tão importante que ela faz algo além de só olhar a postagem.

Agora, quando se trata de conteúdos políticos:

Quem você acha que se engaja mais nas redes sociais, a esquerda ou a extrema-direita?

O que você acha que gera mais engajamento: conteúdos verdadeiros ou fake news?

fake news cultura de engajamento
Fake news bolsonarista nas eleições de 2018: só esta postagem alcançou milhões de pessoas no Facebook. Imagine milhares de postagens como essas.

Pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU) fizeram um estudo sobre isso e o resultado é assustador: no Facebook, conteúdos de fontes classificadas como extrema-direita recebem maior engajamento do que qualquer outro tipo de conteúdo.

Essa não é a pior parte.

O estudo identificou que fontes de extrema-direita classificadas como disseminadoras frequentes de desinformação, mentiras e teorias da conspiração se saíram melhor ainda no engajamento do que fontes de extrema-direita “tradicionais”.

Extrema-direita: 426 interações semanais para cada mil seguidores

Direita: 259 interações semanais para cada mil seguidores

Centro: 79 interações semanais para cada mil seguidores

Esquerda: 60 interações semanais para cada mil seguidores

Pode piorar? Pode sim: como as fake news de extrema-direita recebem mais engajamento, os algoritmos do Facebook e do Youtube, por exemplo, privilegiam a distribuição desses conteúdos.

É por isso que você pode acabar recebendo conteúdos extremistas vindas de páginas que você nunca visitou. No Facebook, esse conteúdo aparece na sua timeline como “recomendado”. No Youtube, esse material geralmente aparece no lado direito da tela do computador, como recomendação, ou no final de um vídeo.

Por falar nisso, o Youtube é a rede social que mais propaga conteúdo de extrema-direita no mundo justamente porque eles gastam muito mais tempo consumindo materiais com mensagens conspiratórias, radicais e extremistas.

 

como o yutoube radicalizou o Brasil - cultura de engajamento
Como o Youtube radicalizou o Brasil. Reportagem do New York Times mostra como a plataforma favorece o extemismo

Por que a “cultura de engajamento” é tão determinante?

Aqui na Abridor de Latas, nós chamamos de “cultura de engajamento” quando grupos sociais se engajam em postagens que representam suas causas ou ideias.

Alguns grupos têm maior cultura de engajamento do que outros. Isso acontece por diversos fatores, inclusive pela compreensão sobre como as coisas acontecem no ambiente digital.

De forma geral, as redes sociais funcionam assim:

→  Engajamento gera mais alcance, que gera mais engajamento, que gera mais alcance, que gera mais engajamento. E por aí vai.

É assim que algumas postagens alcançam milhões de pessoas.

Isso acontece porque se os algoritmos de programação das redes sociais “percebem” que uma postagem está tendo muito engajamento, ela é “importante” para aquele grupo social e, por isso, a rede vai tratar de repassar aquela postagem para mais pessoas. 

 

Dados do Observatório Democracia em Xeque, entre 4 e 10 de julho de 2022

Qual tipo de engajamento é o mais importante?

Entre os diferentes tipos de engajamento, o compartilhamento é o mais relevante porque é ele quem melhor expressa o termo “rede social”.

Vejamos o caso do Facebook: quando alguém publica um conteúdo em uma página, o Facebook entrega para uma pequena porcentagem de seguidores daquela página. Se ninguém se engaja, a publicação fica estagnada (parada) e logo atinge seu limite, provavelmente com alcance muito pequeno.

Se as pessoas se engajam com reações/curtidas ou comentários, o Facebook entrega para mais algumas pessoas.

Agora, se as pessoas compartilham aquela postagem, o Facebook passa a entregar para mais um punhado de pessoas conectadas a elas.

Aí, se algumas dessas pessoas também compartilham aquele conteúdo, o Facebook vai entregar para outras pessoas conectadas a elas. E assim por diante.

engajamento nas redes sociais - cultura de engajamento
extrema-direita se engaja mais - cultura de engajamento

É dessa forma que uma publicação, em vez de alcançar apenas algumas pessoas, passa a alcançar centenas de milhares ou, dependendo da quantidade de compartilhamentos, milhões de pessoas.

Mas por que a extrema-direita consegue fazer isso com muito mais velocidade?

O “método”

Como mostramos antes, é mais fácil viralizar um conteúdo falso do que um verdadeiro. A cultura de engajamento na extrema-direita é muito mais forte.

E como a extrema-direita não se importa com a ética, não tem limites em compartilhar qualquer coisa que reforce seu pensamento.

Mas não é só isso.

O que você acha que estimula mais o engajamento: conteúdos positivos ou negativos?

Vejamos. Um dos métodos mais eficazes para manter as pessoas no extremismo é mantê-las em “bolhas de medo e paranoia” (explicamos tudo neste texto que você pode acessar aqui).

Medos e paranoias são portas de entrada para o ódio.

Um estudo do Departamento de Psicologia da renomada Universidade de Cambridge mostrou que as pessoas reagem mais a postagens que expressam raiva do que as que demonstram amor.

Como grande parte das publicações de extrema-direita expressam raiva e ódio a algum inimigo (geralmente imaginário), elas tendem a receber mais engajamento.

Além disso, a violência e os ataques nas redes sociais também vêm sendo usados como uma arma para que as pessoas que não se alinham ao extremismo sejam acuadas e deixem de postar e de interagir no ambiente digital, inclusive nos grupos de WhatsApp do trabalho, da família, da escola e do condomínio, por exemplo. Isso precisa mudar, agora!

Furar as bolhas e alcançar os “perdidos”

A essa altura da vida política do país, deve estar evidente para você que não basta derrotar eleitoralmente o projeto capitaneado por Jair Bolsonaro. É preciso derrotar a expressão de ódio e violência que ele representa.

Isso vai levar tempo. Mas é preciso afastar as pessoas dessas bolhas extremistas em que continuam habitando (e há um exército gigantesco de pessoas trabalhando para mantê-las aprisionada nesses círculos).

Portanto, há, basicamente, duas saídas:

  • Elas se afastarem do ambiente digital, dos grupos de WhatsApp, das páginas de fake news e de conteúdos de ódio, dos “influencers” que ganham dinheiro para espalhar tudo isso. Enfim, seria necessário um tipo de detox (desintoxicação, mais ou menos como ocorre com dependentes químicos).
  • Fazer com que essas pessoas recebam conteúdos verdadeiros e mensagens positivas, massivamente, para que elas comecem a tomar consciência sobre a realidade.

A saída 1 é mais difícil. Talvez alguém consiga fazer isso com um parente. Remover as pessoas das bolhas de ódio e fake news faria essas pessoas voltarem ao “normal”.

A saída 2 é aquela que sindicatos e movimentos sociais e outros tipos de organização podem construir.

Mas como alcançar as pessoas que vivem em outras “bolhas”?

Aumentar a “cultura de engajamento” progressista e de esquerda

Organicamente, só conseguiremos furar as bolhas se aumentarmos a “cultura de engajamento” do campo progressista e das esquerdas.

É preciso conscientizar as pessoas que lutam por direitos ou desejam construir um mundo melhor de que elas precisam se engajar nas redes sociais para que os algoritmos das plataformas aumentem a distribuição dos conteúdos que elas apreciam.

Mas é necessário ir além e desenvolver ações massivas nas redes sociais.

É preciso criar (muitos) conteúdos de qualidade e estratégicos, capazes de furar as bolhas e alcançar as pessoas com as quais sua entidade não está conectada.

Quanto mais, melhor!

 

As pessoas reagem ao que estão vendo. Se o material se destaca, chama sua atenção (pela qualidade da imagem, pela mensagem curiosa ou provocativa, pela combinação de elementos gráficos), ela tende a se engajar mais.

É por isso que nós, da Abridor de Latas, desenvolvemos muitas campanhas de impacto para sindicatos, federações e coletivos de entidades (que se unem para sustentar uma campanha). Conseguimos furar as bolhas e entregar conteúdos para milhões de pessoas que nunca estiveram conectadas a entidades sindicais ou a grupos de esquerda ou de pensamento progressista.

Nossa receita é produzir materiais que impactam pela imagem e pela mensagem, magnetizam pelo texto, e estimulam o engajamento das pessoas nas causas que estamos apresentando. Isso faz com que cheguem longe, levem conscientização, derrubem pré-conceitos e gerem mudanças.

Assim, damos a oportunidade para pessoas conhecerem conteúdos e ideias com as quais nunca tiveram contato. Esse é o primeiro passo para elas enxergarem a realidade como ela é.

O tempo está passando. A violência extremista está aumentando. O movimento sindical não pode mais continuar falando apenas para si mesmo.

Fale com a gente. Vamos conversar sobre como podemos começar a mudar agora essa realidade.

Hey,

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4 Replies to “Por que a esquerda tem menos “cultura de engajamento” do que a extrema-direita?”

Antonio Mendes Neto

Muito 10 top

Edna

Muito esclarecedor

Ana

Excelente.
Extremamente relevante.

Cleusa A Demarchi

Esclarecedor importante